• Aliança de Batistas do Brasil

As diferenças denominacionais não devem nos separar.

Entrevista com o pastor André Musskopf

No dia 9 de julho, o doutor em Teologia, luterano, André Musskopf, recebeu sua consagração ao Ministério Pastoral na Igreja Batista Nazareth (IBN), em Salvador-BA. Teólogo queer, internacionalmente reconhecido, André tem se dedicado ministerialmente às diversas lutas por Direitos Humanos, em especial as que dizem respeito à população LGBTQIAP+.

Para entender todo esse processo e quais caminhos um ato como esse pode/quer apontar, conversamos com ele. O resultado desta prosa você confere a seguir. Boa leitura.


1. Oi André, como você “recebeu a notícia” de sua consagração?

O processo que levou até minha consagração ao Ministério Pastoral na Igreja Batista Nazareth é bastante longo e foi construído através de uma trajetória de lutas e compromissos, e com o apoio de muitas pessoas e organizações.

Há mais de 20 anos eu tive o acesso ao Ministério ordenado negado na minha igreja de origem. Ao longo desses anos, eu segui trabalhando com questões de diversidade sexual e de gênero na minha produção acadêmica, na minha militância política e no meu trabalho com grupos de base, muitos dos quais ligados a diversas denominações religiosas, além de acompanhar muitas pessoas individualmente.

Em muitos desses espaços, as pessoas me reconheciam e se referiam a mim como “pastor” e, diversas vezes, surgiu a questão de buscar a ordenação ou consagração em outra instituição. Por vários motivos isso nunca se deu e, em conversa recente com o pastor Joel Zeferino, da Igreja Batista Nazareth, e com amigas e amigos, entendemos que esse era o momento oportuno para fazê-lo.


Eu tenho uma relação de longa data com a Igreja Batista Nazareth, que sempre me acolheu e afirmou meus dons e minha vocação com muita generosidade. Trata-se de uma igreja única, que em 2022 completou 47 anos de “resistência, luta e ” (como diz o slogan da igreja), com rupturas históricas em relação a questões políticas no Brasil, diálogo inter-religioso e outros temas e situações marginais na maioria das igrejas.

Esse contato e essa história fizeram com que eu me aproximasse da igreja, me tornasse membro e fosse indicado para a consagração ao Ministério Pastoral. Por isso, recebi a notícia da confirmação do Concílio e da Consagração com muita alegria e emoção.

Tanto para mim quanto para a IBN esse ato tem um caráter profundamente político ao expor a exclusão de pessoas LGBTQIAP+ em grande parte das igrejas cristãs e, ao mesmo tempo, reconhecer e afirmar essas pessoas como membros legítimos no exercício de sua cidadania religiosa. É uma demonstração de que é possível sermos Igreja que acolhe, inclui e afirma as pessoas em sua diversidade como um compromisso ético e político, que é parte de nossa fé.


Assim, a alegria também vem pela possibilidade de que a minha consagração possa ser uma oportunidade para que as pessoas LGBTQIAP+ nas igrejas se sintam fortalecidas para lutar pelo seu espaço e pelos seus direitos no contexto religioso, mas também político. Além disso, me alegra a possibilidade de que outras igrejas se sintam desafiadas a tirar esse tema dos armários nos quais invisibilizam temas que consideram difíceis, e tenham diálogos honestos e abertos, como demanda a verdadeira missão da Igreja.


2. Você é luterano por formação, mas foi consagrado em uma Igreja Batista. É natural que nosso público fique curioso pra saber "o que motivou isso". Pode dividir conosco um pouco dessa história?


Em primeiro lugar, sem dúvida, o acolhimento e a caminhada conjunta com a Igreja Batista Nazareth é o que motivam a minha consagração nessa igreja. Como afirma a carta de confirmação da decisão tomada em assembleia:

“Para além de mera decisão formal, a aprovação se deu com forte emoção, com vários votos de louvor e apreciação por toda a sua significativa caminhada pessoal, teológica e pastoral, a qual reconhecemos com humildade, que acrescenta muito, ao escolher somar sua história à nossa”.

Ou seja, trata-se de formalizar e reconhecer que a nossa histórica é comum e que nossas formas de ver o mundo e vivenciar a fé se encontram nesse caminho.

Isso não anula nem elimina a minha formação e a minha trajetória dentro da Igreja Evangélica de Confissão Luterana. Em carta à Presidência dessa igreja eu informei do processo de consagração e afirmei que continuo vinculado, inclusive formalmente, a essa igreja como membro. Pergunto, também, da possibilidade de que essa mesma igreja reconheça a minha consagração e me inclua no seu rol de ministras ordenadas e ministros ordenados.

Acredito que quem tem uma caminhada ecumênica e entende o ecumenismo como uma prática cotidiana de convivência e colaboração entre as diferentes denominações religiosas e entre as diferentes religiões entende que as identidades denominacionais não deveriam nos dividir ou separar. O denominacionalismo, em muitos casos, é uma herança colonial e imperialista que promove disputas e competições entre as diferentes igrejas como forma de controle social e político.

O trabalho do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) e de todo o movimento ecumênico, nesse sentido, é um sinal concreto de um projeto de unidade pelo bem comum, respeitando a diversidade e a individualidade denominacional e anunciando coletivamente a mensagem de paz com justiça. Por isso, o ecumenismo também tem sido tão atacado e demonizado por grupos que buscam impor uma hegemonia religiosa e, como temos visto, uma hegemonia política e cultural.

O fato de vários grupos de diferentes denominações e religiões participarem da minha consagração é uma expressão da superação desse denominacialismo e a afirmação de que somos irmãos e irmãs não apenas na fé, mas como comunidade humana na Terra. Se as igrejas e religiões têm alguma contribuição para dar no atual contexto, esse estar e caminhar conjunto na prática eclesiástica cotidiana e na luta por justiça talvez seja a principal delas.

Minha consagração em uma Igreja Batista não quer ser e não é, nem de minha parte, nem da parte da Igreja que me consagra, uma afronta ou deslegitimação de nenhuma igreja ou denominação religiosa. Ela é resultado de nossas caminhadas que se cruzam e que queremos celebrar. Isso não significa que não estejamos conscientes das implicações políticas dentro e fora do campo religioso.

Ainda assim, a consagração é uma resposta minha e da IBN a um chamado e a uma vocação que tem autoridade e é legítima em si mesma. Dentre as várias questões que ela pode ensinar, uma delas é justamente essa: as diferenças denominacionais não devem nos separar e o diálogo e o encontro de diferentes tradições apenas enriquece e fortalece o nosso testemunho de compromisso com vida digna para todas as pessoas e para todo o mundo criado.


3. No dia de sua consagração, você também lançou o livro “Há vida depois da Igreja”. Do que trata essa obra e por qual razão a recomendaria ao nosso público?






O livro “Há vida depois da igreja” (compre aqui) faz parte de dois projetos. Um deles é um projeto mais amplo que se chama “Série Ensaios Teológicos Indecentes” (da Editora Senso), que tem como objetivo tornar mais acessíveis discussões sobre teologia, religião e diversidade sexual e de gênero, publicando textos em formado “de bolso” que, mesmo mantendo o rigor acadêmico e de pesquisa, permite que as pessoas tenham um contato mais próximo com esse tipo de reflexão. “Há vida depois da igreja” é o Vol. 5 dessa Série.

O segundo projeto ao qual esse livro específico se vincula é um esforço de registrar histórias e trajetórias de pessoas LGBTQIAP+ que têm sido sistematicamente invisibilizadas e apagadas na maioria das igrejas. Esse projeto é resultado do meu trabalho com grupos de diversas igrejas, especialmente de jovens, que conhecem muito pouco sobre as discussões e processos vivenciados em suas igrejas em relação a questões de diversidade sexual e de gênero, e do esforço de dar visibilidade e reivindicar o lugar dessas pessoas na tradição da igreja.


Nesse livro específico, eu relato memórias do processo que culminou com o impedimento do meu acesso ao Ministério Ordenado na minha igreja, em 2001. Ao relembrar e recontar essa história, busco não apenas contar a minha história pessoal, mas registrar os processos a que muitas e muitos de nós, ainda hoje, somos submetidas e submetidos, denunciando a violência de tais processos, mas também fazendo memória de outras histórias e trajetórias semelhantes e que não chegam a ser contadas.

Ao mesmo tempo, qualquer exercício autobiográfico tem uma dimensão de cura e reconciliação com a nossa própria história e com quem nos tornamos a partir dela. Há muitos silêncios e muitas interdições nessa história, bem como muitas versões – até certo ponto fantasiosas – do que aconteceu comigo. Revisitar esses fatos é, também, uma oportunidade para que cada leitora ou leitor possa refletir sobre as violências sofridas no contexto religioso, como sobrevivemos a elas e responder à pergunta que o título do livro propõe: “Há vida depois da igreja?” a partir da sua experiência, assim como eu faço a partir da minha.

Lançar o livro no contexto da minha consagração ao Ministério Pastoral, 20 anos depois dos eventos e situações relatadas, também tem a força simbólica de afirmar que nenhum processo, por mais violento que seja, precisa ser definitivo e que, coletivamente, é possível encontrar caminhos e construir relações de paz e justiça que promovam a vida.

4. Em tese, Igrejas deveriam ser locais seguros e de acolhida para todas as pessoas. No entanto, sabemos que nem sempre isso é uma realidade. Você concorda?

Sim. Infelizmente as igrejas são os lugares mais inseguros para pessoas LGBTQIAP+, especialmente por conta da violência religiosa a que estamos expostas e expostos. Aqueles lugares e aquelas instituições que mais deveriam ser espaços onde pudéssemos nos desenvolver de maneira saudável – a família, a escola e a igreja – são os espaços nos quais mais sofremos violência e discriminação e que mais deixam marcas profundas em nossas trajetórias.

Já passou da hora de superarmos a ideia de que a vivência religiosa e a diversidade sexual e de gênero são incompatíveis e de que nossas experiências religiosas e no âmbito da sexualidade não são válidas ou legítimas. O chamado não é apenas para acolher, incluir e afirmar as pessoas que se identificam como LGBTQIAP+. O chamado é para dialogarmos com honestidade e abertura sobre como nossas experiências sexuais se relacionam com nossas experiências religiosas e entender que a sexualidade é uma dimensão da experiência humana para ser celebrada, inclusive no contexto de nossa fé.

A discussão sobre diversidade sexual e de gênero no âmbito religioso tem o potencial de transformar radicalmente a vida de nossas comunidades e instituições, pois a maioria de nós, seja qual for nossa orientação sexual e/ou identidade ou expressão de gênero, vive relações e está sob estruturas que nos violentam e produzem injustiça. As violências praticadas contra as mulheres, inclusive nos espaços religiosos, por exemplo, são uma expressão mais do que evidente de que há algo de muito errado nas formas como temos vivido e organizado nossas relações.

A nossa luta por relações e formas de organização dialógicas, horizontais, participativas e democráticas também deve ser uma luta pela transformação das estruturas teológicas, políticas e pastorais em nossas igrejas e religiões. Ser um espaço seguro e de acolhida não é uma concessão que as igrejas fazem ou devem fazer em relação a alguns grupos, mas um modo de ser que explicite o fato de que somos afetiva e eroticamente interdependentes, em relação a nós mesmas e nós mesmos e em relação a todo mundo habitado.

Entrevista realizada pelo CONIC - Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil 12 JULHO 2022 https://www.conic.org.br/portal/conic/noticias/as-diferencas-denominacionais-nao-devem-nos-separar-entrevista-com-o-pastor-andre-musskopf


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