• Aliança de Batistas do Brasil

Carta ao Povo Brasileiro:ACERCA DO CENÁRIO POLÍTICO ELEITORAL





“E Jesus disse-lhe: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mt. 22:37-39





Estamos muito próximos das eleições presidenciais em outubro e nossa oração é que estas aconteçam de forma pacífica e democrática. Estarrecidas/os e assombradas/os com a forma imoral e vergonhosa como boa parte da igreja evangélica brasileira tem se comportado nos últimos anos, e em especial neste pleito, vimos a público como cristãs/os protestantes de tradição batista que se assumem progressistas, ecumênicas/os e que defendem um mundo diverso e plural em todas as suas formas de expressão, declarar que:

1. Amar é o mandamento maior proclamado por Jesus Cristo, o Verbo Divino encarnado, preto, pobre e periférico de Nazaré. Logo, discursos de ódio, intolerância e de perseguição por razões religiosas ou políticas são incompatíveis com a mensagem do evangelho (1 João 4:8);

2. O incentivo e a promoção do armamento da população é uma atitude irresponsável e criminosa, que além de aumentar a insegurança e a violência, alimenta o clima bélico e truculento que temos visto neste período eleitoral, colocando todas as pessoas que divergem do atual mandatário e de suas políticas como alvos que precisam ser eliminados ou enquadrados dentro das “quatro linhas”;

3. Fechar os olhos para as necessidades do povo brasileiro e lançá-lo, em grande parte, de volta ao Mapa da Fome (33 milhões de brasileiras/os sofrendo insegurança alimentar) é um pecado abominável que denunciamos veementemente: “Porque tive fome e não me deste de comer.” (Mateus 25:42) Negligenciando a justiça, importantes lideranças religiosas e denominacionais no País, cegas pela fome de poder, mobilizadas por interesses espúrios e pelo desejo de perpetuar seus impérios religiosos, abraçam uma pauta farisaica e pseudomoralista, chafurdando-se no alinhamento a um governo incompetente e autoritário de forma acrítica e imoral, enquanto grande parte das famílias brasileiras são relegadas ao total abandono e descaso;

4. Transformar templos religiosos e púlpitos, lugares reservados para adoração ao Eterno Criador e a formação do senso crítico das/os fiéis, em espaços de propaganda político-partidária e intimidação eleitoral, além de lamentável, viola a Constituição e agride o nome sagrado de Deus, digno de toda honra e toda glória;

5. Ignorar o sofrimento das pessoas LGBTQIA+ e violar seus direitos, alimentando a homofobia, lesbofobia, bifobia e transfobia por trás dos incontáveis casos de feminicídios; silenciar diante dos assassinatos de lideranças indígenas, indigenistas, ambientalistas e defensores de diretos humanos e da preservação das nossas florestas, apontam para uma religiosidade impiedosa, sem misericórdia e sem compromisso com o amor radical ensinado e vivido por Jesus;

6. Acovardar-se em denunciar o aparelhamento não apenas das instituições estatais, mas também o colaboracionismo de grande parte das lideranças evangélicas, que entregam suas igrejas e organizações ao discurso virulento e mentiroso do atual presidente do nosso País, enquanto silenciam frente às diversas truculências e maldades, a exemplo do tratamento irresponsável e criminoso da pandemia da Covid-19 que vitimou até aqui quase 700 mil brasileiras/os (muitas das quais poderiam estar vivas), é uma prática pecaminosa de conivência com a morte do inocente.

Em seu silêncio, tais lideranças se tornam coparticipantes do genocídio da população pobre, preta e periférica (a maior parte das vítimas da Covid-19), ao passo que perseguem aqueles e aquelas que do alto da sua consciência cidadã se erguem para denunciar as podridões e acordos imorais dos porões denominacionais;

7. Transformar qualquer frágil liderança humana na figura de um “mito” ou “messias” com pés de barro, a quem se curvam de forma alienada e subserviente, é idolatria e não se coaduna com o ideário do povo de fé identificado como Batista, que historicamente tem prezado pela liberdade de consciência e o livre pensar. Logo, não podemos apoiar nenhum projeto político que requeira de nós abrir mão do lugar profético, da crítica responsável, independente e comprometida com o bem-estar da coletividade e da vida planetária.

Inspiradas/os no mandamento maior do amor, proclamado por Jesus (Marcos 12.28-30), exercitamos nossa liberdade profética como Batistas que acreditam no Estado Democrático de Direito e defendem a separação entre igreja e estado, mediante o fortalecimento do Estado laico e de uma sociedade religiosamente plural.

Denunciamos e repudiamos os batistas, evangélicos ou outras lideranças religiosas que neste momento da história se alinham ao negacionismo, à intolerância e alimentam discursos de ódio que levam pânico e terror para o seio do nosso povo e de nossas famílias, cobrando das mesmas uma fé subserviente de cabresto.

Em contraponto, afirmamos como Batistas ecumênicos e progressistas, pequenas sementes de mostarda que navegam em frágeis barquinhos, nosso compromisso com o livre pensar, o amor ao próximo, a causa da justiça e do pobre (as vítimas da violência sistêmica do capitalismo predador, da intolerância, do racismo, da misoginia e de todas as formas de preconceito) e a liberdade consciente e crítica de escolha como uma dádiva divina.

Não subscrevemos grupos e candidaturas a quaisquer cargos públicos que defendam o armamento da população, o racismo religioso, a perseguição aos corpos das mulheres e LGBTQIA+, que disseminam mentiras e o ódio como instrumentos para ler e interpretar a Bíblia.

Pelo contrário, conclamamos aos brasileiros e brasileiras de bom senso a exercerem o poder do voto com consciência e coerência, pois estamos diante de uma das mais consequentes decisões eleitorais de nossa geração.

Orar não basta. Nos cabe agir para banir o mal travestido de valores moralistas e encoberto por discursos religiosos.

Nestas eleições, somos livres para votar de acordo com nossas consciências, mas temos a responsabilidade de votar com a coerência de quem conhece o amor e a justiça encarnadas na figura do Jesus Nazareno, pobre, preto e periférico.

Votemos em quem pode contribuir para a sobrevivência e fortalecimento das instituições democráticas e para a implementação, em todos os níveis de governo, de políticas públicas que elevem a qualidade da vida humana, a liberdade de consciência, a condição de vida das populações mais vulneráveis e a proteção de um planeta cada vez mais fragilizado.


Setembro de 2022

Camila Oliver

Presidenta da Aliança de Batistas do Brasil

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